A comissária de bordo
Até agora não entendi o motivo da implicância da loira comigo. Foi a primeira vez voando pela Air Canada – e tinha criado altas expectativas, estava voltando da Costa Rica para a Espanha, com um layover de 7 horas, em Toronto.
Eu estava num bom humor absoluto, mas sem incomodar ninguém - na verdade, acho que só eu sabia da alegria que borbulhava dentro de mim. Alegria pelas férias relaxantes, pelo sol, sal, calor, mar, pela quebra do inverno europeu, pela energia "pura vida" costarriquenha, pela noite muito bem dormida.
Eu estava tão relaxada – e bronzeada, diga-se – que esqueci de fazer o check in on line para escolher os assentos e acabou que eu e o Duncan sentamos separados. Descobrimos pelos bilhetes que estávamos a duas filas de distância. "Não tem problema, pedimos pra trocar" - eu disse, ainda sem saber que nada tiraria meu estado de alegria, nem mesmo descobrir que não tinha uma televisão pra entretenimento, que o Duncan não carregou o computador pra que eu pudesse me distrair, pelo fato de um espanhol ficar colocando os joelhos no meu bumbum porque o espaço pras suas pernas era pequeno, pelo fato de eu ter esquecido dentro da mala os fones de ouvido do telefone (que só cabem um especial) - bom, nesse caso, eu até disse: "Opa! Eu disse que iria ler mais, aproveito e uso essas 4 horas e 35 minutos pra terminar meu livrinho querido".
O problema mesmo surgiu quando a comissária passou a me dar "bundadas" no ombro em todas as vezes que passava pelo corredor. Ela sabia que tinha me "quadrilzado", olhava com desdém e passava reto. "Essa tá longe do meu nível de humor", pensei sorrindo.
Perdi a conta de quantas vezes ela repetiu. Umas mais fortes, outras mais fracas. Eu me recolhi, mesmo com uma senhora dormindo quase em cima de mim, do outro lado, e tentei não dar espaço pra ela me bater. Bobinha... quando ela veio com o carrinho de bebidas, ela me bateu com o cotovelo. Não muito forte, mas me incomodou – e eu só queria ler meu livrinho em paz. Falando em paz, eu nem pedi água, nem aceitei a comida, tudo isso pra não incomodar mais a moça. Ela vinha trazendo o carrinho de costas e falava um inaudível "watch your sholder". Quando ela continuou andando, dei uma sorriso esperando ansiosamente pelo "sorry" que nunca chegou.
Fiquei pensando no que eu posso ter feito pra despertar tamanha empatia (haha), mas, sem encontrar nenhuma resposta, continuo com meu David Sedaris que me ajuda ainda mais a aumentar a felicidade interna e gargalhar em pensamento (se nunca o leram, leiam!). Quando estava no meio de um conto, ela derramou ÁGUA em mim e no meu livro. Eu nem me importei com a água, eu só queria o tão esperado pedido de desculpas. "Oh God! Let me bring you a towel". Não, não teve sorry.
Nessa hora, além do meu medo normal de morrer em cada voo, tinha aquela pessoa ali com ódio de mim e que com certeza me escolheria a ser jogada do avião voando caso a porta de emergência arrebentasse e eles precisassem escolher alguém pra salvar todo o resto (ou qualquer situação que faça mais sentido que esta minha invenção de porta de emergência arrebentando – como podem ver, sou uma profunda conhecedora de aviões e situações de emergência).
Nem em Deus eu acreditava pra rezar pra que aquele voo terminasse logo e agora estava ali, economizando as páginas do meu livro-metade-água e levando bundadas a cada 10 minutos.
As 22:40, sairia meu voo para Barcelona e eu só esperava MESMO que não fosse a mesma tripulação. No momento em que eu pensava sobre isto, começou a aterrissagem e uma turbulência gigante começou. Foi a pior bundada de todas. Dela e de mais 3 comissárias, juntando com o pavor de morrer.
Bom Voyage
Atualização: Air Canada eleita como a pior companhia aérea que voei. O voo de Barcelona foi péssimo, isso porque eu dormi quase todo. Comida, serviço, calor.
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