segunda-feira, junho 05, 2006

Edukators

Assistam “Edukators”. Não posso afirmar que é o melhor filme que vi neste ano que passou, mas posso indicá-lo como surpreendente. Adorei o drama que, não por acaso, foi a única produção alemã a ser selecionada para o Festival de Cannes em uma década, o que diz muito sobre o cinema alemão ou sobre Cannes, você que sabe. Bom, “Edukators” é um prato cheio pra mim, um animal político. Recomendo que você veja a película com amigos de várias vertentes ideológicas e depois bata um longo papo. Recomendo.

A história do filme gira em torno de três jovens revolucionários que invadem mansões enquanto os seus proprietários estão fora. Sem roubar nada, mudam os móveis de lugar e deixam mensagens do tipo “Vocês têm dinheiro demais”, com o intuito de assustar os porcos capitalistas. Mas desde o princípio podemos observar a ingenuidade dos jovens que possuem valores amorosos pequeno-burgueses até. E a gente gosta deles!!!

Até que aparece um tal desses ricaços que estava intrinsecamente ligado à história. Vários acontecimentos inesperados surgem e este tal ricaço tem que ser seqüestrado por eles, pra piorar tudo, eles descobrem que o sujeito já foi um idealista como eles na época em que era normal sonhar com revoluções. E agora?

O filme poderia ser ultramanipulador e fazer do milionário um vilão detestável e dos jovens nossos heróis românticos sem contradições. Mas não é o que acontece. Claro, a visão do ricaço me pareceu indefensável. Pra quê trabalhar tanto e acumular coisas que nem se tem tempo pra usufruir? Ele diz que é da natureza humana competir e querer juntar mais e mais. O mais legal é que um dia antes ouvi esse mesmo argumento de um amigo rico meu. Tal justificativa é das mais furadas, já que nada é natural, tudo é construído. Somos adestrados pra acreditar que o que martelam na nossa cabeça nasceu conosco. E o que é natural não pode ser combatido, uma grande falácia.

Eu realmente fiquei pensando em várias partes do filme como seria o final. Utópico ou piegas demais?O fim é um dos trunfos do roteiro por amarrar muitíssimo bem todos os temas.
“Edukators” usa a inteligência pra nos provocar enquanto brinca com nossos preconceitos, inclusive os cinematográficos. Por exemplo, tem uma hora que o ricaço some, e um dos jovens entra num quarto pra procurá-lo. Nossa imaginação nada fértil após tanta doutrinação hollywoodiana nos diz: pronto, agora o milionário nocauteia o revolucionário e foge. Nada disso. As provocações ideológicas vão mais longe ainda. Uma garota trabalha como garçonete num restaurante de luxo, onde é maltratada por uma elite asquerosa que acha que certo tipo de bebida só pode ser servida em certo tipo de taça. O filme nos surpreende, nos angustia em alguns trechos. Mas é muito diferente de qualquer filme que chegue num lugar-comum americano.

“Edukators” não se acanha em falar de dinheiro, mesmo sendo subentendido de esquerda. Assim: uma personagem bateu sem querer numa Mercedez. Ela calcula quanto vai precisar trabalhar pra saldar o prejuízo de cem mil euros. Dá oito anos. Imagina quanto tempo isso seria no Brasil, um país onde a distribuição de renda é muito mais desigual que na Alemanha. E por aí vai. “Edukators” é, no fundo, cinema de entretenimento. Mas também altamente educativo. Afinal, não é todo dia que um filme nos lembra que o coração é um órgão revolucionário.

Tim Tim.