Minha família é/foi comunista. Sinto o maior orgulho do mundo do meu avô, presidente do Partidão no Pará antigamente. A pessoa mais integra que conheci, no sentido literal da palavra. Integral, completo. Uma das pessoas mais bondosas que já pude ver.
Eu sei bem o que é comunismo, eu vivi a ideologia em casa. Então, se alguém contestar, que seja com inteligencia e embasamento porque o amadurecimento nos deixa flexível inclusive pra aceitar novas ideias. Mas que sejam ideias de verdade.
E, inclinada a militância na adolescência, perdi a prática na juventude. Acabei me mudando de país e nao consegui mais me dedicar. Mas sempre tendo a vontade no coração e o sangue político, que esperneia pelos seus direitos, que não quer admitir injustiça.
Morei na França, o país das manifestações. Não militei, só participei das "manifs" que pude. Me mudei pra Barcelona, onde pensava ficar mais longe dessa gana sanguínea. Me enganei.
Cheguei na Catalunya e não na Espanha. Os catalães são separatistas, lutadores e não são acomodados. Percebi uma semelhança com os militantes franceses desde o início.
Quando, no trabalho, me falaram - Mayra, tens como vir trabalhar no dia da greve geral ou queres dormir aqui no hotel? - Eu percebi que não tinha escolha. Começando num emprego novo, num país em crise e eu ganhando meu espaço sozinha. Com meu esforço. Em meu período de "prova" iria dizer: Não contem comigo, eu vou fazer greve pelo povo espanhol. Muito lírico e utópico. Eu poderia manifestar depois!
Depois das mais longas 9 horas no trabalho, consegui sair, onde eles, medrosos, fecharam as cortinas com medo dos manifestantes e eu, dentro, querendo estar fora. De um lado, obligée, queria estar do outro. Lutando, gritando, enfrentando a polícia e o governo do meu "mais novo país" como se fosse meu desde que nasci. A luta pela injustiça, a guerra social não pode existir só de onde vim, mas onde estou. Porque quem tem no sangue, tem em qualquer lugar. E sente a dor pelo mundo aqui, ali ou acolá.
Meio sem graça, desajeitada. Enferrujada no "ramo" das manifestações. Troquei de roupa e por "pura" coincidência, estava com uma blusa vermelhinha. Maquina na mão e fogo na pista. Meu coração acelerou! Naquele momento, vendo o primeiro fogo nas grandes latas de lixo, percebi que era aquilo que estava faltando pra mim. Me senti viva. Se acreditasse em Deus, juraria por ele que senti o sangue todo escorrendo e correndo, latejante, em minhas veias. Era ela... A Revolução.
Essa greve geral na Espanha me fez emocionar a alma de arrepios lindos de nostalgia do que nem vivi. Me senti na revolução cubana, em maio de 68, na ditadura militar brasileira. A polícia me empurrou forte, jogou bomba contra nós, atirou com armas de fogo ilusório e de grande ruído pra assustar (era tao nítido o som de bala que eu me senti morta durante uns segundos. Mas era adrenalina!). Correria, gritaria, pedras atiradas, fogo. Muito fogo! Fogo da nossa parte também! Carros queimados, latas de lixo e o que mais fosse possível pra manifestar toda a dor que sentimos no peito contra as injustiças sociais e contra os efeitos do capital. Mas essas policinhas nao sao de nada! São músculos covardes sem ter capacidade de lutar pelos seus direitos. Aliás, eles nem falam nada. Só usam um tipo de apresentação que vai da "trilha sonora" das sirenes até descida dos furgões e em seguida, subir de novo. Parecia um espetáculo de dança. E não os Mossos de Esquadra defendendo algo que nem sabem o que.
Pensei muito em maio de 68, inclusive por ter morado em Paris antes e que foi mais próximo da minha juventude. Só então eu percebi que estou vivendo a Espanha 2010 e não o maio de 68 de 2010. Estou testemunhando e fazendo parte de uma outra época, de uma outra história. Estou horando uma outra luta, com mais maturidade, no século XXI e com outro tema, mas o mesmo sentimento de amor de um revolucionário em qualquer outra época.
To arrepiada até agora. A Revolução corre nas minhas veias. E é disso que eu gosto! Me senti viva a cada palpitação acelerada do meu coração em meio as sirenes, as ameaças policias. Me senti amiga dos catalães que queimavam o lixos, jogam pedras nos carros de polícia e foram perseguidos. Me senti amiga dos manifestantes todos, de todos os militantes. Senti, cada vez mais forte, o sangue correndo pelas veias.
Esse texto tem edição e continuação. Esse sim!
Vejam o vídeo
http://www.ondacero.es/OndaCero/Mossos-activistas-enfrentan-centro-Barcelona/NWS_10092971
