Outro dia
parei no meio de uma epifania que talvez possa nunca mais voltar. Era um sábado
à noite e depois de um dia todo grudados até na corrida, pegando um sol e
inventando novas receitas de húmus, Baco (ou Dionísio) chegou. E a Epifania foi interrompida pra dar lugar à atenção ao companheiro de todas as horas.
Era de
noitinha e o sábado mal tinha começado e eu já sentia falta dele. O sábado
começando e o desejo forte de que ele não terminasse era grande. Pra que mesmo?
Nuns vinte
e muitos anos, finalmente encontrei. Não o melhor companheiro e cúmplice porque
ser “o melhor” é quase o mesmo que definir qualidade. Relativo. Então, sendo
uma questão de percepção, digo por mim e mais ninguém, o meu melhor companheiro
e o meu melhor cúmplice. Chegou, assim, mesmo sendo cliché, sem avisar. Chegou
e demorou, para os dois, que algo pudesse ser realmente o que tem sido pela
história de vida de cada um.
Adaptação
aos novos prazeres, que são, mais que nada, mais do outro do que o teu próprio.
Uma vontade incontrolável de ser melhor e querer sempre mais. Uma coisa tão boa
de sentir que até se confunde com medo; e digo pela Capitu e Machado de Assis em toda a história
nos fazendo descobrir junto com Bentinho que “amar traz também o medo”. O medo
de acabar, o medo do outro se machucar, o medo da saudade, ainda que a saudade seja sabendo-se onde, como e quando.
Amar tanto
que dói. Achei que essa era uma afirmativa de pais falando sobre os filhos e
não de amores amantes e amados. Lembro muito bem do meu pai me contando que
quando eu nasci, ele acordava todas as noites pra ouvir meu silencio dormindo
no berço, colocando seu ouvindo no coração da pequena Mayra para saber se ela respirava; tão pequena e tão indefesa naquele novo mundo. Sim, eu, um dia em minha vida, fui a calmaria, a que dormia
mais de 8 horas por noite, mesmo sendo um bebê com cabeça de “cupuaçu”.
Nesse
sábado de dias grudados querendo virar um, começava o “de noitinha” e e eu pensei na
“Insustentável Leveza do Ser”. Não tanto pela obra ou pelo autor, mas pela
sensação que aquele livro me trouxe. Eu era bem mais nova quando o li pela primeira vez e aquela sensação de economizar pra não não
terminar estava ali de novo. Sabes quando amas muito um livro que inclusive o escondes para não
terminar de tanto que te toca? Naquele sábado, não foi por Kundera. Naquele
sábado, foi pelo amor.
E amor pra
mim não significava assistir juntos ao futebol depois de ter pegado sol lendo
clássicos, o amor pra mim era uma união de tudo, dos livros, da vontade de ser
melhor, de montar “a mesa” no chão tomando Bordeaux, do sexo, do entendimento,
da cumplicidade, de toda a verdade e de, sobretudo, toda a diversão do mais
famoso “se bastar” em dupla. O amor pra mim foi a união disso e de mais um milhão
de coisas que eu poderia imaginar compartilhando vida.
Hoje fico
pensando no antes e abro um sorriso. O amor tem dessas… E o nome do meu é
Duncan.